Conceito e Produto Final

O que você interpreta quando vê uma obra de arte? Você já procurou o que o artista quis dizer com tal obra? Sua interpretação foi similar à do artista? Se você freqüenta galerias de arte e fica parado na frente de uma tela por horas e horas, viajando em cada pincelada que o artista colocou na tela ou passa horas em uma instalação procurando por cada detalhe que numa rápida olhada escapa de seus olhos, e no final você sai da galeria com cara de intelectual, mas em sua cabeça você fica pensando “Que droga ele quis dizer?”. Talvez seja melhor dar uma lida no panfleto resumindo a vida e obra do artista antes de passar horas e horas imaginando o que seria aquela tela toda azul na sua frente. Você já pensou que pode ser tão simples quanto “É uma tela pintada toda de azul. E fim!”.

O Conceito

Todo artista quando faz um trabalho parte de um conceito em sua cabeça. Seja opor-se a um movimento anterior, seja ir com a maré e fazer o que os outros fazem. Um conceito pode surgir em um minuto ou em um ano ou em uma década. É uma forma de organizar suas idéias para melhor expressá-las na obra de arte. Quanto melhor definido o conceito, mais forte será a base para uma obra.

Drawing Restraint 2

Os conceitos podem surgir como uma seqüência complexa de pensamentos e idéias ou ser simples idéias organizadas da maneira mais ordinária. Por exemplo, o conceito da obra de Matthew Barney pode ser aparentemente simples como o Drawing Restraint, em que a idéia de resistência faz com que os músculos fiquem mais fortes através da hipertrofia ou pode ser tão complexo como o Cremaster cycle no qual ele utiliza idéias de biologia e psicologia.  

O Produto Final

O produto final é a obra em si. Uma tela, uma instalação, um vídeo. É toda expressão originada de um conceito. Depois de organizar as idéias e conceitos, o artista se expressa na mídia escolhida por ele como melhor meio de expressão e o resultado é o produto final, que então é exposto em galerias, cinemas e exposições públicas. Por exemplo, o produto final do conceito do Cremaster cycle é os filmes, as instalações, os desenhos, as fotografias e os livros. De um grande conceito surgiu uma enorme obra de arte. Do Drawing Restraint surgiu os desenhos, a performance e a instalação. Nem sempre grande conceitos resultam em grandes obras de arte.  

Produto Final X Conceito

Tirando historiadores da arte e estudantes de arte que possuem um conhecimento da maioria dos artistas, as outras pessoas que freqüentam exposições de arte são ignorantes. Elas param na frente de uma obra e permanecem alguns segundos e passam para a próxima obra. Ás vezes, me pergunto se elas apenas apreciam a beleza ou o horror da obra, ou se elas param para pensar sobre o que o artista quis dizer. Se a primeira afirmação for verdadeira, então pergunto para que um conceito se essas pessoas podem apreciar somente a beleza que pode ser encontrada num simples quadro de paisagens vendido em feiras e em O Grito de Munch?

Todas as idéias organizadas pelo artista não servem para nada para uma pessoa que fica parada na frente de um quadro por alguns segundos para concluir se gosta ou não daquela obra, se acha bonita ou feia, a não ser que o conceito seja fazer a pessoa gostar ou odiar tal obra. Um conceito mais complexo pode ter o objetivo de instigar a mente da pessoa, fazê-la pensar/refletir sobre algo ou alguém; se a pessoa não vai além da beleza/feiúra, o conceito então é falho? Um quadro que as pessoas sentem repulsa pode ter surgido de um belo conceito, assim como um quadro retratando uma bela paisagem pode ter surgido da simples idéia de pintar tal paisagem ou de uma ironia.

Cremaster Cycle 3

Então o produto final, para as pessoas ignorantes, não está relacionado com o conceito criado pelo artista, mesmo que o conceito seja não ter conceito algum. Por exemplo, o Cremaster cycle de Barney é recheado de estéticas bizarras e até repugnantes, porém o conceito por trás da obra é maravilhoso e bem elaborado, mostrando que a representação adotada por Barney tem uma razão de ser.

Jum Nakao

Outro exemplo, o trabalho de Jum Nakao com as roupas de papel. Para alguns era somente uma extravagância, uma esquisitice do estilista. Para outros possui o conceito de efemeridade da moda. Em palestras, Nakao não revela o seu conceito, mas sim o conceito de fazer as pessoas pensarem um pouco e tirarem suas próprias conclusões, porém a reação mais usual é a dor de ver coisas tão belas serem destruídas e ponto final.

Pichações

Como exemplo final, porém não o último, podemos citar as pichações e grafites nas ruas da cidade. As pessoas dizem que estão deixando a cidade feia, porém não deixa de ser um tipo de arte com um conceito, mesmo pichações de siglas de gangues possuem um conceito por trás que não é divulgado. Os grafites são obra de arte realmente, porém são confundidas com as pichações. A arte é muito subjetiva, tanto na sua leitura como na sua produção, portanto o desentendimento da arte é comum entre as pessoas, porém este é um problema que está sendo ignorado pelas pessoas. Sim, o buraco é mais embaixo.  

PROBLEMAS(?)

Novamente tirando as pessoas que escolheram estudar arte e que vão com um olhar treinado para uma galeria de arte, o resto das pessoas nunca foram treinadas para ver uma obra. E por isso que elas param por alguns segundos na frente de uma obra somente para concluir se gosta ou não, se é bela ou feia. A arte já é divulgada para a população que não tem acesso, mas ainda falta algo. Não é só pendurar um quadro na frente da pessoa e ir embora, é preciso ficar ao seu lado e guiar o seu olhar até o momento que ela própria poderá caminhar seus olhos pelo quadro, prestando atenção em cada detalhe e até pensando porque foi feito assim e não assado.

Seria altamente recomendável se informar sobre o artista em exposição antes de visitar suas obras, ou no mínimo, ler o panfleto que resume a vida e obra do artista e que são distribuídas nas galerias. Seria como entrar num cinema sem saber que filme você vai assistir. Tudo bem que, às vezes, a obra pode surpreender. Aconteceu comigo ao ver o filme The Matrix, que fui ver sem saber do que se tratava e sai do cinema boquiaberto. Porém fiz algo que a maioria das pessoas não costuma fazer: fui correr atrás para saber sobre o filme, por que foi feito daquele jeito, por que foi usado tal estética.

Deveria haver mais meios de ensinamento da arte. As visitas guiadas cumprem esse papel dentro das galerias, mas o que acontece fora? As pessoas podem ser autodidatas, mas preferem ler sobre como enriquecer, como se dar bem na vida. Na velocidade com que o tempo se move, não há tempo para estudar arte, há tempo somente para pendurar um quadro na parede e apreciar sua beleza.

A arte ainda é considerada algo intelectual que somente pessoas intelectuais podem entender, mas as pessoas ditas intelectuais não nasceram assim, elas escolheram estudar e se informar sobre as artes. Tanto que pessoas que freqüentam uma galeria, mesmo sendo ignorantes sobre a arte, são consideradas intelectuais. Qualquer pessoa pode ser tornar um “intelectual”, é só querer.

Não sei qual a solução para o problema do ensinamento da arte, talvez trabalhos voluntários, mas quem vive só de trabalhos voluntários, infelizmente? Temos somente um lado da moeda, é preciso fazer a pessoa olhar para um quadro de uma forma, então mostrar a visão do artista, e fazê-la refletir sobre as duas idéias na sua cabeça. Sou totalmente a favor do museus que dão papel e lápis de cor para que as crianças parem na frente de um quadro e desenhem o quadro. Elas podem até estar somente se divertindo, mas ao mesmo tempo estão colocando o cérebro para funcionar, pensando, mesmo que inconscientemente, em como fazer aquilo que está feito na sua frente. Depois é só rezar para que ela se informe sobre como o artista conseguiu fazer aquele obra e tire sua próprias conclusões. Talvez o melhor resultado seria uma obra totalmente diferente daquela que está pendurada na parede, pois mostraria que a criança pegou o conceito da obra e fez a sua versão. Nunca devemos repreender uma criança por fazer algo que não se parece com o que ela está observando.

Enfim, acredito que o conceito e o produto final devem andar lado a lado, porém o que acontece hoje em dia é que o produto final tem mais divulgação que o conceito criando assim um vazio entre os dois que prejudica o entendimento de arte pelas pessoas ignorantes.

Lado B do disco

Em discussões sobre o que seria e se existiria arte espontânea, chegou-se a uma conclusão parcial que a arte pode ser espontânea na sua concepção, mas nunca no seu final. Talvez agora ficou um pouco mais claro para eu entender isso. O conceito para uma obra de arte pode ser espontâneo (temos que levar em consideração que uma obra de arte é dita obra de arte a partir de sua concepção e não somente a partir que ela é finalizada), mas depois de organizar as idéias, sua expressão não é espontânea.

Atrevo-me a dizer que poderia ser comparado ao conceito de não-diferenciação do projeto Cremaster cycle de Matthew Barney. Este conceito originado da biologia afirma que o feto nas cinco primeiras semanas de gestação, não possui sexo definido. O potencial de ser homem ou mulher é igual. A definição, então, pode ser dita espontânea, assim como o conceito de uma obra de arte pode tomar qualquer caminho, cabe ao artista definir o caminho, o mesmo acontece com os hormônios que determinam o sexo do feto.

Então a arte espontânea só pode surgir da fusão do conceito e do produto final, uma vez que o produto final nunca será espontâneo e a espontaneidade seria garantida pelo conceito. Voltando o disco para o lado A, a arte espontânea jamais seria reconhecida por alguém que não tem conhecimento de arte.

Bem para deixar alguns nós desatados para tentar amarrá-los mais tarde, qual seria uma melhor definição de arte espontânea, já que esse rótulo pode ser confundido com a espontaneidade de expressão da arte?

 

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3 Respostas para “Conceito e Produto Final

  1. Acho que sua resposta fechou de uma forma legal a discussão.
    De fato, o isolamento em grupinhos intelectualistas não gera conhecimento.
    Ou melhor, gera só conhecimento próprio e não pra sociedade.

    E, de fato, COMO FAZEM FALTA AS NOSSAS CONVERSAS!!!!! :D

    A gente sempre conciliou os pensamentos e chegou a meios-termos, enriquecendo a bagagem um do outro…

    E parabéns pelo blog, acho que eu não tinha dito isso ainda!

    Tá muito legal!

  2. Vou ler com mais calma depois. mas tá bem aqui hein. Fico tão contente com isso. Amigo, te admiro pacas.

    Eu também de admiro pacas. E estou sentido a sua falta e de nossa conversa. Às vezes, sinto que eu, você e o Ale formaríamos a trinidade perfeita que vagaria pelos bares boêmios parisienses. Hehehe.

  3. Putz, longo post.
    Mas devo discordar um tanto em alguns pontos.
    Isso é uma discussão pesadíssima a meu ver.

    Tanto que cheguei a brigar com algumas pessoas da pós e agregar outras em meu favor.

    Acho que o conceito DEVE EXISTIR SIM, como você disse.
    Mas não acho que as pessoas DEVAM saber a respeito da obra.

    A pessoa "ignorante" em artes frui a obra assim como ela frui quadros da feirinha da praça da república. E acho que deve ser assim mesmo.

    Não vou conseguir explicar todo o meu ponto de vista num post, mas vou tentar resumir:

    A educação de arte deve ser procurada SIM por algumas pessoas, que levam a arte como resultado da evolução humana, forma de expressão máxima de sentimentos e externações.
    Mas o público geral, inclusive esses estudiosos, DEVEM ter a liberdade e a familiaridade com qualquer expressão artística, de pouco ou grande valor e para isso, PRECISAM saber fruir uma obra simpleste por seu repertório e bagagem cultural.

    Do tipo, não é porque eu nunca li nada sobre Andy Wharhol que eu deva me ausentar de olhar as polaróides dele ou as latinhas de sopas Campbell´s.

    Um amigo em comum mesmo outro dia falou uma besteira do tamanho de um bonde sobre essa obra.

    E por que?

    Por causa do "meio certo". O público em geral que vai atrás de "estudar" a obra, acaba lendo só o folheto da exposição ou o que um site fala do autor. Não se aprofunda e acaba falando meias verdades ou entendendo errado o que o autor queria.

    Acho melhor nesse caso a pessoa ter um referencial próprio e dizer "nossa, que horrível, são latinhas de sopa!"

    Mas ainda não é isso que eu acho. Não estou conseguindo explicar.
    Só acho que nem sempre o conceito é necessário.
    Às vezes, a pedra era só uma pedra mesmo. Que estava no meio do caminho.

    Que ela diga pra cada um o que cada um quiser interpretar.

    E o autor, pra que elaborar um conceito?

    Pra realizar uma grande obra de arte. Pra se satisfazer e se sentir mais perto da "luz".
    E pra que um número de pessoas perguntem "por que ele fez isso?". Nem que seja uma pessoa só, morando na Islândia.

    Talvez eu tenha me expressado erroneamente e talvez com mais fervor em algumas partes. Concordo com o que você disse sobre a pessoa olhar uma obra com sua prórpia bagagem cultural. Concordo que talvez nem sempre o melhor é saber sobre a obra, se for para abrir a boca para dar uma de esperto. Talvez eu tenha me perdido no meio do caminho (não sei se por causa da pedra ou não…hehehe), mas eu queria saber para que ter um conceito, se no final cada um interpreta a obra do seu jeito. Por que não dar uma de picareta e fazer qualquer coisa com qualquer significado, já que quando a obra estiver exposta, cada pessoa vai ver ou deixar de ver certos detalhes.

    Mas acho que as pessoas devam saber sobre as artes, mesmo que meias verdades. Qual a intenção do artista, para que elas se perguntem: "Mas por que ele não fez assado?". E não ficar somente no "por que ele fez isso?"  E se elas se expressam erroneamente para a gente, estudiosos e filósofos da arte, acho que temos pelo menos tentar mostrar uma verdade mais próxima da realidade. Não que os estudiosos e filósofos da arte sejam os donos da verdade, mas com certeza tentamos encontrar a verdade mais verdadeira e acho que não devemos nos juntar em grupinhos e isolarmos da sociedade. Talvez no post faltou a seguinte frase: "E tal artista pensou nisso para fazer esta obra. E vocês? Como retratariam esse conceito?" É isso que as pessoas ignorantes têm que aprender a fazer quando observam uma obra tendo informações, mesmo que panfletos contendo informações confusas. Elas têm que ficar ativas na frente de uma obra.

    Chamei as pessoas que não são estudiosas na arte de ignorantes, no sentido de não saber realmente do que se trata. Acho que elas deviam ser mais curiosas e procurar informações e temos que guiá-las. Sim, temos que levá-las pela mão, abrir o livro na página certa e sublinhar as informações relevantes. Mas temos que ter cautela. É como o ditado chinês: "Não devemos dar o peixe sempre para o pobre, e sim devemos ensiná-lo a pescar."

    E novamente quero sublinhar o objetivo inicial do post: Para que ter um conceito, se no final cada um interpreta a sua maneira. Então talvez o conceito serviria para que a pessoa ficasse ativa em frente a uma obra, pensando por que foi retratado assim e não assado. Acho que para as pessoas ignorantes falta ainda uma frase: "Nossa que horrível. São latinhas de sopa! Por que ele não fez uma cena de um grande jantar onde serviriam essas sopas?" E acho que nosso papel é esse, fazer as pessoas pensarem mais um pouco ainda. Devemos explicar: "Ele fez por causa disso." E ela retrucar: "E por que ele não fez por causa daquilo?" Estaremos ensinando e aprendendo ao mesmo tempo.

    E é muito legal ter a sua opinião, a troca de idéias. Na minha cabeça eu não tinha colocado esse outro lado da moeda para pensar. E não vamos brigar, ok? Hehehe…. E desculpe pelo longo post, mas como você disse: um post não é o suficiente para a expressão exata das idéias. Quem mandou a gente se acostumar com horas e horas filosofando sobre um assunto? Hehehehe…a consequência agora são longos post e longas respostas…hehehe… Fico feliz com isso!

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