Japonismos

Antes, respire fundo e responda rápido: O que te faz lembrar o Japão? Agora pare e pense, se o que você respondeu  é realmente japonês ou é fruto de uma imagem que você viu em algum lugar, um filme, um comercial, etc.

Provavelmente a resposta pensada se encaixa no chamado Japonismo. Um termo para definir a imagem do Japão vista por outros olhos. Deixa eu explicar melhor (ou tentar, pelo menos).

O Japonismo é a visão do estrangeiro sobre o povo japonês. Bem, então poderíamos falar sobre brasileirismo, norte-americanismo? Sim, mas no caso falarei sobre o japonismo porque sou japonês. Esse japonismo afeta o mundo e até o povo japonês. Os jovens japoneses já não tem idéia do que é ser japonês, a sua cultura foi criada em imagens bombardeadas de como seria o japonês.

Todo o mundo é bombardeado por imagens, no mínimo, estereotipadas do Japão. Usar um quimono lembra o Japão. A vestimenta possui toda aquela magia e tal, mas na verdade nada mais é do que um traje elegante usado em ocasiões especiais. Um quimono mais simples é usado para treinamento de artes marciais. O quimono também lembra a gueixa e há todo aquele mistério por trás dela, mas na verdade é apenas uma imagem criada pelo Ocidente. Todas essas imagens que vemos em filmes ou clipes, como o da Madonna em Nothing Really Matters são japonismos. Sâo visões estrangeiras sobre o Japão.

Outra imagem bastante difundida pelo cinema é a dos samurais, que no meu ver, equivaleriam aos cavaleiros medievais. Houve uma época que existiu um boom da imagem dos samurais: o livro Musashi, o mangá Vagabond e o filme O Último Samurai. A imagem que temos é que um samurai é um super-herói, um cowboy de quimono, na verdade ele era apenas um guerreiro, um tipo de soldado que defendia as terras do seu senhor. A lealdade, determinação e dedicação pelos quais o povo japonês geralmente é conhecido nasceu nessa época com o Bushido, os ensinamentos dos samurais. E digo que qualquer um pode seguir esses ensinamentos e ser leal, determinado e dedicado. Não precisa ser japonês para fazer isso. Os samurais foram dizimados quando houve a abertura para o Ocidente. 

Toda essa imagem sobre o Japão afeta os jovens japoneses, sejam eles japoneses ou brasileiros. Acaba com a individualidade de maneira que os japoneses acabam tentando ser os mais diferentes possiveis uns dos outros.

Harajuku

Essa procura pela individualidade tem como conseqüências outro japonismo: o japonismo do próprio Japão. Os jovens estão cada vez mais distantes das tradições japonesas e acabam criando uma imagem deles mesmos a partir do conflito de suas tradições e das idéias difundidas no Ocidente. O principal exemplo pode ser encontrado no Harajuku Station. A primeira impressão que fica é que esses jovens estão fantasiados, mas na verdade eles estão se expressando. Eles não fazem por diversão, é um estilo de vida. Na tentativa de se rebelar contra a tradição japonesa, eles se vestem desta maneira e acabam criando mais uma atração turística no Japão, e mais um japonismo.  

Disse acima que sou japonês, mas isso é outro conflito porque aqui no Brasil, as pessoas me olham e eu sou japonês, mas no Japão eu serei um brasileiro, mesmo tendo as mesmas características físicas. Exemplos de como o japonismo afeta os brasileiros: as pessoas acham que falo japonês, que eu conheço todas as tradições japonesas e que as sigo fielmente, que eu participo cerimônias do chá, que freqüento um templo budista. Poderia citar milhares de japonismos. Um bom exemplo desse japonismo aqui no Brasil é o filme da Tizuka Yamazaki, Gaijin 2 que mostra o conflito entre o Oriente (Japão) e o Ocidente (Brasil). Mostra a imigração japonesa, a imagem que o japonês tem dele mesmo, a imagem do estrangeiro sobre o japonês e a imagem do japonês sobre o estrangeiro. É um bom filme para tentar entender o que é ser japonês fora do Japão e tentar resgatar valores tradicionais.

Então qual a imagem que você tem do Japão agora?

O ùltimo Samurai: Divulgação

Harajuku: Divulgação

Gaijin 2: Pedro Ivo Prates / Verve Comunicação / Divulgação

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7 comentários sobre “Japonismos

  1. Parabéns…intrigante isso, pelo menos pa mim…
    e vai me ajudar muito num seminário q preciso fazer e terei de falar sobre a homogeneidade tradicional no Japão!
    Valeu!

  2. A imagem que tenho é a de que é necessário questionar sempre o que imaginamos de uma cultura e seu povo.
    Parabéns pelo texto, faz cair por terra muitos conceitos sem fundamentos.
    Vc studa Antropologia?

  3. Caramba!
    Cê podia tentar mandar esse post pra alguma revista especializada tipo aquela do Festival do Japão.

    Mesmo, ficou muito bom!

    Nossa cara valeu! Mas eu ainda acho que pode ser lapidado ainda mais. Valeu.

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