Arte para o povo continua sendo arte para a elite

Você já se sentiu intimidado dentro de uma galeria de arte com todas aquelas pessoas paradas na frente de quadros com caras pensativas e você parou na frente daquele quadro, ficou alguns segundos e foi embora e aquelas pessoas continuaram na frente do quadro com caras pensativas e você pensou: “Será que eu não entendi direito o que o artista quis dizer?”

E então você vê o mesmo quadro um dia exposto no metrô, mas não tem tempo para parar porque você está sempre correndo, mas lembra que você ficou em dúvida. E fica nisso.

Pó de pirlimpimpim

A arte tornou-se algo tão distante das pessoas e o mito de que a arte é algo complexo e para poucas pessoas fortaleceu-se. As pessoas que não se consideram parte do restrito grupo dos chamados estudiosos da arte, ficam passivas frente a uma obra de arte. E a interação que eu acredito que deva existir entre a obra e o observador desaparece.

Popularizar a arte significa fazer com que a população também entenda a arte e não somente um grupo restrito. A idéia de trazer objetos do cotidiano poderia aproximar essas pessoas da obra de arte, mas às vezes o conceito é tão complexo que o objeto do cotidiano ganha uma nova dimensão desconhecida. E o espremedor de frutas que você tem em casa, torna-se um objeto desconhecido na galeria. Parece que quando você leva um objeto cotidiano para dentro de uma galeria, jogam pó de pirlimpimpim que transforma um objeto conhecido em algo totalmente novo. E o espremedor de frutas não é mais reconhecido dentro de uma galeria de arte.

Espremedor de frutas

Se é feito o caminho inverso, a obra de arte passa despercebida, por exemplo, as obras de arte no metrô. A intenção é legal, pois num lugar onde milhares de pessoas passam por dia, seria uma maneira de fazê-las apreciar a arte, mas às vezes tenho a impressão que as obras só estão lá para “enfeitar o metrô”. Foram pouquíssimas pessoas que vi parada na frente de uma obra. E aquelas que param são as mesmas que freqüentam uma galeria de arte, as que ignoram são as mesmas que não tem muito interesse de ir numa galeria. Houve uma exposição em que os artistas fizeram intervenções em algumas estações do metrô de São Paulo, mas a atenção foi chamada para essas obras e foi colocado um rótulo “arte” nelas. E quem não sabia dessas exposições, achou estranho ter aquelas coisas no metrô, mas ficou nisso. E numa cidade grande como São Paulo, o metrô é uma correria só e ninguém presta atenção numa pintura exposta na parede. Principalmente aquelas que são permanentes. Parece, então, que quando você tira uma obra da galeria, o pó de pirlimpimpim perde o efeito. Um outro exemplo que podemos citar são os grafites nas ruas de uma cidade. Os grafites não deixam de ser uma expressão de arte, a expressão de uma cultura urbana. São tomados como poluição visual, mas até as autoridades já pegaram os grafiteiros para fazer sua arte nas ruas de São Paulo, na tentativa de embelezar a cidade. E novamente voltamos para o pó de pirlimpimpim. Essas obras de arte espalhadas pela cidade quando colocadas dentro de uma galeria são tomadas a sério como expressões artísticas. Por que essa mistificação de uma galeria de arte? 

Label Lovers

As galerias de arte são os locais onde o rótulo “arte” é colocado; é como comprar uma roupa numa loja popular e costurar a etiqueta de uma grife famosa. No manifesto “Em busca de um novo humanismo”, escrito pelo Grupo de Guerrilha de Ação Artística da cidade de Nova York eles afirmam: “Os museus e as instituições culturais são os sagrados templos onde os artistas (…) são santificados”.[1] As galerias servem para isso. Quem não consegue expor dentro de uma galeria não será “santificado” como artista e eu acredito que qualquer pessoa que tenha consciência da sua arte é um artista. Assim como um quadro exposto na galeria é arte, um quadro exposto numa feirinha de final de semana também é com a diferença que o artista na galeria foi santificado por estar lá, enquanto o artista da feirinha é um zé-ninguém. São simples rótulos apenas. Porém nas nossas mentes, esses rótulos estão tão fundamentados que temos medo da arte nas galerias e conseguimos ficar mais próximos dos quadros das feirinhas. Em outra passagem do manifesto, a seguinte pergunta é colocada: “O que você pensa que a Arte significa? Será uma espécie de mítica comodidade abstrata, negociada no mercado e guardada pela polícia? Como é possível que a Arte precise ser guardada pela polícia? Somente às posses valiosas, às propriedades e ao dinheiro, é dada proteção policial – será isso o que a Arte deve ser? Será a propriedade mais valiosa do que a vida e a liberdade? Não deveria a Arte estar mais relacionada com a vida e com a liberdade do que com a propriedade?”[2] 

Essa característica atribuída à arte de caráter monetário, talvez também seja um dos motivos da arte ser pouco divulgada. Não vou sair falando que tenho um quadro que vale não-sei-quantos-trilhões e assim só quem tem não-sei-quanto-trilhões-e-um-pouco-mais tem acesso a esse tipo de arte.

Perguntas e Respostas

O manifesto parece um pouco raivoso e repreende os artistas que fazem um trabalho mais comercial, mas contém uma verdade que é o afastamento da arte da população, mantendo-se apenas restrito à um pequeno grupo. Eles propõe que a arte tem que ser “um processo educacional de conscientização, um processo de humanização que confronta a insanidade e violência de nossa violência e que dá importância à vida”.[3]A arte não pode possuir o rótulo de arte, pois no sistema que vivemos esse simples rótulo de quatro letras causa uma complexidade tão grande que poucas pessoas conseguem decifrar. Mais uma vez, insisto que é preciso rever a educação da arte para que a complexidade imposta pelo sistema se desfaça. É preciso fazer com que as pessoas pensem e não apenas absorvam a informação. “O espectador não está inclinado a reagir às qualidades ‘dinâmicas’ de forma e cor, e, por isso, o objeto físico está devidamente presente e observável, mas a obra de arte não.”[4] Acredito que não devemos simplesmente descrever a obra de arte, o background do artista e a situação da sociedade na época. Devemos contar também quais as ferramentas que o artista possuía na época, comparar com outras obras de mesmo tema e perguntar para as pessoas como elas fariam. Claro que existem outros meios de fazer as pessoas ficarem ativas frente a uma obra de arte. “O professor de arte à moda antiga, que se limita a indicar o assunto, e seu moderno sucessor, que pergunta às crianças quantas formas arredondadas ou pontos vermelhos podem encontrar no quadro, não fazem mais que encorajar a criança a olhar.”[5]

Na minha época de primário, eu tinha aulas de educação artística e fui repreendido algumas vezes pelo fato de querer pintar o sol ou o céu de outra cor além do amarelo e azul, respectivamente. Acho que isso para uma criança é assassinar sua criatividade e sua liberdade de expressão. Mesmo que ela não tenha uma explicação lógica ou mística para querer pintar o sol de verde, por exemplo, não podemos reprimir sua expressão artística. E é claro que temos que observar se a criança não é daltônica e acha que aquele lápis de cor verde é amarelo.

Citando William S. Wilson III: “Mas por que a arte moderna é tão difícil? Por que a arte não pode mostrar as coisas como elas são: a pintura de um vale e do pôr do sol; a história de uma viagem de uma casa de campo até Londres; uma dança em que uma linda jovem é alçada às alturas; uma peça em que os atos de um bom e poderoso homem mantém o centro da atenção; uma sinfonia em que cada parte ajuda a desdobrar o todo?…a arte, que sempre fora um modo de pensar a realidade, o real e o que deveria ser, podia imitar a existência verdadeira e, ao mesmo tempo, celebrar o ideal que ocasionalmente resplandece na atualidade, na forma de um homem heróico, de uma mulher superior, da fachada simétrica e da rima perfeita. Havia começos, meios e fins, e uma hierarquia benevolente em que a parte superior servia à inferior e esta, àquela. Mas a Arte não pode imitar mais o mundo, porque aquele mundo, se algum dia existiu, agora não mais existe. A Arte é o pensar sobre o real, e aquele mundo, agora irreal, é objeto apenas do entretenimento.”[6] Mesmo que a arte seja sobre nada é ainda preciso fazer com que as pessoas fiquem ativas frente a uma obra de arte para quando surgir uma obra importante, elas já tenham o costume de pensar.

Freqüentar uma galeria de arte não é somente um momento de lazer, mas também um momento de refletir sobre o passado, o presente e o futuro e por isso, elas não podem ser mistificadas como complexas a ponto das pessoas não entenderem a obra. A arte precisa ser “relevante e antitrivial; é preciso que agite as mentes dos que a admiram a fim de que se compenetrem da essência da crise; é preciso que dirija e envolva os seus admiradores para a ação; é preciso que questione; é preciso que provoque.”[7]Não estou dizendo que as pessoas têm que ser experts em arte, mas que elas têm que ter consciência da arte. As pessoas têm que fazer arte e não ficar somente no plano da observação, mesmo que a arte surja num pedaço de guardanapo no bar da esquina. Não estou dizendo que elas precisem saber o conceito do artista para criar tal obra, mas seria bom se soubessem para que comparassem com o seu próprio conceito criado ao observar a obra e de que dessa fusão surja um novo conceito, aumentando sua bagagem cultural. Não podemos deixar que as pessoas olhem para um quadro, absorvam as informações básicas e quando vêem um quadro parecido ou com mesmo tema, elas ignorem esse segundo quadro com o pensamento de já ter visto algo parecido. É preciso guiar as pessoas para que elas vejam a simplicidade e complexidade de uma obra. É preciso continuar a divulgação da arte para a população que cada vez mais freqüentam uma galeria. É preciso fazer as pessoas ficarem ativas em frente a uma obra de arte. E acima de tudo mostrar que a arte não é um bicho de sete cabeças que só alguns nasceram com o dom de fazer.


[1] HENDRICKS, Jon; JOHNSON, Poppy; TOCHE, Jean. Em busca de um novo humano. In: BATTCOCK, Gregory. A nova arte. Editora Perspectiva, p. 108.[2] HENDRICKS, Jon; JOHNSON, Poppy; TOCHE, Jean. Em busca de um novo humano. In: BATTCOCK, Gregory. A nova arte. Editora Perspectiva, p. 109.

[3] HENDRICKS, Jon; JOHNSON, Poppy; TOCHE, Jean. Em busca de um novo humano. In: BATTCOCK, Gregory. A nova arte. Editora Perspectiva, p. 110.

[4] ARNHEIM, Rudolf. Intuição e intelecto na arte. Martins Fontes, p.4.

[5] ARNHEIM, Rudolf. Intuição e intelecto na arte. Martins Fontes, p.4.

[6] WILSON III, William S. Arte: Energia e Atenção. In: BATTCOCK, Gregory. A nova arte. Editora Perspectiva, p. 282-83. .

[7] HENDRICKS, Jon; JOHNSON, Poppy; TOCHE, Jean. Em busca de um novo humano. In: BATTCOCK, Gregory. A nova arte. Editora Perspectiva, p. 111.

Fonte: Espremedor de frutas

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