No limiar da vida (Nära livet), 1958

Mesmo quando alguém diz que um prato é delicioso, não devemos ser apressados e querer experimentá-lo o quanto antes. Tudo tem o seu tempo. E quando tiver que ser, será. E assim aconteceu comigo ao assistir o meu primeiro filme de Ingmar Bergman.

A pedido de uma grande amiga, dei meu primeiro passo ao mundo de Bergman. Não sou um estudioso nem um grande fã das obras de Bergman, mas resolvi que deveria me aventurar nesse mundo. E admito que escolhi o filme ao acaso e, de repente, eu, virgem na filmografia de Bergman, sou jogado dentro de uma maternidade onde três jovens dividem o quarto. E claro, eu sou a quarta jovem. E por que eu afirmo isso? Não sei se é os tantos closes das atrizes que parecem estar se dirigindo a você, mas logo nos primeiros minutos é difícil ficar apático aos personagens. Todos, logo, criam uma ligação com você, seja de empatia ou antipatia, mas a ligação está lá. Os personagens são o que são e os poucos que usam uma máscara, logo a retiram e se mostram para o espectador. E sendo um espectador masculino, é quase um voyeurismo observar os dramas, angústias e sonhos que essas jovens dividem.

Nascimento e morte formam o ciclo da vida, todo mundo sabe disso. Mas aqui, parece que Bergman tenta mostrar um dos between disso que é o ciclo da mulher à mãe. Nove meses de gestação não prepara uma mulher para a hora do parto. Tudo pode acontecer e o que tiver que ser, será. Bergman coloca cada uma dessas mulheres num ponto do ciclo logo nos primeiros minutos do filme e assim que ele termina de pontuá-las, o ciclo começa a girar diante de nossos olhos. Vemos suas personagens no ponto mais alto e mais baixo do ciclo. E é difícil ver sonhos despedaçados e outros se tornando realidade quando há empatia por todas as personagens e entre elas. Parece errado sentir-se feliz pela felicidade de uma enquanto a outra sofre logo no leito ao lado. E numa maternidade onde o barulho e os gritos significam a chegada de uma vida, o silêncio incomoda e muito.

Disse alguns parágrafos acima que escolhi o filme ao acaso, mas parece que o acaso não existiu dessa vez. Como uma grande metáfora (para um adorador de metáforas como eu), parece que esse filme foi o filme perfeito para adentrar o mundo de Bergman. Afinal, dessa maternidade em que Bergman conta a sua história, nasce um entusiasta pelo seus filmes.

Para ler mais sobre outros filmes de Bergman, vá até o Indigestivos Oneirophanta

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