A cultura da imagem

Muito se falou e se divulgou sobre o “escândalo” envolvendo a integrante da banda AKB48, Minami Minegishi. Muita gente achou absurdo chegar ao ponto que chegou, mas ser japonês é isso. Parece estar no sangue e, como descendente de japoneses, eu posso afirmar que falhar não é uma opção. E Minami falhou em ser um modelo para seus fãs, falhou em seguir as regras impostas para as integrantes do grupo (que acho absurdo), falhou em deixar ser flagrada, mas realmente não precisava chegar ao ponto que chegou.

Minami Minegishi, da banda AKB48, no vídeo de desculpas por ter sido pega saindo da casa do namorado, Alan Shirahama.

A cultura da imagem é forte nos japoneses. O Japão vende uma imagem para o mundo, mas a história é outra. Só quem é de uma família japonesa, tradicional ou que tenha resquícios, sabe o que é ter que manter a imagem. Para os jovens é preciso ser o filho e aluno exemplar, para os adultos é preciso ser o bem sucedido. Qualquer outro resultado que não a perfeição é visto com maus olhos. E não é a toa que esse mito de que japoneses são mais inteligentes, mais bem sucedidos é amplamente difundido. É essa a imagem que o Japão faz questão de mostrar para o mundo.

Claro que manter essa imagem não é algo simples e é acompanhada de muita pressão, tanto que houve uma época que era “moda” ouvir falar sobre jovens japoneses que se suicidaram por não conseguir entrar numa faculdade renomada. E precisa chegar a esse ponto de tirar a vida? Claro que não. A cultura ocidental divulga que se falhar, é para tentar de novo. No Japão, você só tem uma chance e precisa acertar no alvo, claro que isso está mudando com o tempo, mas ainda é recorrente. Jamais, em nenhuma ocasião, deve-se fazer algo vergonhoso, seja passar a noite na casa do namorado ou não passar na faculdade mais famosa.

Essa pressão de ser exemplar reprime extremamente os japoneses de se expressarem, emocionalmente e sexualmente, e por isso que temos o mito do japonês taradão que é auxiliado pelos milhares de mangas eróticos que existem por lá. Acho muito hipócrita o fato de mostrar personagens em situações de extrema pervesão sexual e censurarem os genitais com uma tarja ou um mosaico. E daí você começa a matutar e perceber que os monstros com seus milhares de tentáculos que penetram a garota bonitinha, na verdade, é um jeito de burlar essa censura e mostrar formas genitais. Afinal se a censura é para genitais, um tentáculo é um tentáculo, mesmo que ele tenha forma de um pênis. E por causa dessa repressão, tenho certeza que,o mercado do sexo é muito rentável no Japão, mesmo sendo marginalizada, ainda está lá e não some. E se não some é porque alguém sempre procura, né? Eu, por sorte, consigo expressar minhas vontades sexuais, embora tentaram me reprimir quando adolescente. E tive dois namoradinhos japoneses que ficavam chocados quando eu falava que queria fazer outra coisa além de papai-mamãe. Claro que não duraram.

E sabendo que o japonês sofre pressão da sociedade e dele mesmo, por que é uma surpresa chocante ver a Minami chegar a esse ponto? Simplesmente porque é muito medieval. Lembra muito o ato de harakiri dos samurais, que se fosse noticiado hoje causaria tamanho furor (bem, é só ver o furor causado pela história da Minami). Claro que a harakiri não acontece mais no Japão (ou pelo menos não é divulgado) e o último caso mais famoso foi do escritor Yukio Mishima. Basicamente, esse ato para manter a honra depois de ter falhado. Um último ato de coragem de uma pessoa que cometeu um ato vergonhoso. E embora seja divulgado desse jeito, para mim é um ato de covardia, pois a pessoa prefere morrer do que passar o resto de sua vida com as pessoas apontando o dedo para ela, lembrando-a do ato vergonhoso que ela cometeu.

Cena do filme Harakiri, de Masaki Kobayashi, 1962.

Muito se falou também do silêncio do namorado envolvido no caso da Minami, Alan Shirahama. Muitos o condenaram por não apoiar a namorada, outros disseram que ele deveria raspar o cabelo para apoiar a Minami. Aí entra novamente a cultura da imagem e máfia do mercado fonográfico. Shirahama faz parte de uma boy band fabricada também. Não o conheço, mas ele tem uma imagem pública a manter e quase 90% de certeza que ele foi “aconselhado” a ficar em silêncio, caso não quisesse sofrer consequências parecidas. O que me deixa perplexo é todo o furor causado pela Minami ter dormido com o namorado e não a regra imposta pelo criador da banda. Se ela ou ele fosse casado e tivessem um caso extraconjugal, até entenderia o pedido de desculpas da Minami, mas não. Ela não estava fazendo nada demais para uma garota de vinte e poucos anos.

Enfim, o triste final dessa história, provavelmente, vai ser a seguinte: Minami vai acabar saindo da banda; ela não vai mais namorar o Shirahama porque ele vai ser “aconselhado” a deixá-la porque ele “não quer” sua imagem associada com uma garota que cometeu algo “vergonhoso”. O criador Akimoto vai continuar ganhando dinheiro (muito) até a próxima moda surgir e enquanto isso, milhares de meninas nos seus 14 anos vão continuar fazendo audição para entrar na AKB48 (ou qualquer outras três letras 48).

Repito: ainda acho que ela deveria parar de chorar e se arrepender, dar a volta por cima, aproveitar o novo look e tentar carreira solo a não ser… a não ser que seu criador seja uma pessoa tão influente que ela nunca conseguiria mais nada pelo resto da vida e apenas sobra a AKB48.

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