Clive Barker mandou meus estereótipos para o inferno

Há mais ou menos um quarto de século atrás, minha irmã mais velha me iniciou em um vício que carrego até hoje: filmes de terror e suspense. Ela adorava assistir filmes de terror a noite depois que meus pais iam dormir e eu, geralmente, acabava indo para sala para ficar com ela e lá adormecia.

Lembro de ter visto algumas cenas de Sexta-feira 13 e A Hora do Pesadelo. Mas eu não ia com a minha irmã para assistir os filmes, eu ia para tomar o leite com chocolate que ela fazia para ela. Mas ao ficar um pouquinho mais velho, eu ainda ia roubar o leite com chocolate dela, mas acabava assistindo um pouquinho do filme e morria de medo. Tinha pesadelos depois durante dias e mesmo assim, quando ela estava assistindo algum filme de terror, lá estava o irmão mais novo dela. E foi assim que eu tive meu primeiro contato com Hellraiser – Renascidos do Inferno. E lembro de ter ficado muito assustado com o filme.

Anos depois, mais velho, me deparei com o filme em VHS na locadora e lembrei do personagens PinHead na capa do vídeo e acabei alugando para assistir. Nessa época, minha irmã já não ficava mais em casa nos finais de semana e lá fui assistir o filme sozinho. Claro que fiquei morrendo de medo e quase não consegui dormir. Na verdade, devo ter ido dormir quando o sol já começava a raiar.

Hellraiser me marcou por todas suas cenas fortes de terror e erotismo e, principalmente, por ser a primeira vez que eu reparei no corpo masculino nú. Tudo bem que pelo que me lembro não era uma cena muito sensual, mas lembro dos músculos das costas e dos braços do ator. E embora eu tenho ficado muito assustado com esse filme quando descobri que havia a parte dois, lá fui alugar e assistir. E foi a velha história: assisti e depois não conseguia dormir de medo. Talvez o gosto por filmes de terror seja genético.

Pausa para pularmos uns cinco anos a frente. E lá estava eu, um adolescente fissurado em filmes. Alugava um monte de filmes e assistia todos. Na época eu colecionava a revista Set e eles sempre traziam, em cada edição, fichas colecionáveis com a capa e as informações técnicas do filme. E num belo dia, me deparo com a capa de Hellraiser e todo o medo voltou a tona, assim como a vontade de assistir o filme novamente.

hellraiser

E eu assisti novamente, o corpo masculino me chamou a atenção e eu não consegui dormir direito a noite. E mais uma informação foi adicionada (ou melhor uma pergunta): o filme era de Clive Barker.

Mais uma pausa para avançarmos mais alguns anos. Eu já tinha consciência que gostava mais do corpo masculino do que do feminino. Já sabia que era gay e não tinha muito problemas com isso. Não via nada de errado. Já comprava revistas de homens pelados (claro que escondido, não por ser homens, mas por ser de nú) e numa dessas revistas, lá estava a capa do Hellraiser novamente e alguém falando sobre o Clive Barker ser gay. Vamos avançar mais alguns anos e lá estava eu ligando os pontinhos: Clive Barker criou o Hellraiser. Criou todas aquelas criaturas horrorosas e terríveis, mas que me fascinavam. Criou todo o mundo subterrâneo que me apavorava. E aquele cubo que era a chave do próprio inferno e morria de medo.

E me perguntei será que esse Clive Barker que criou um mundo tão sombrio e apavorante era o mesmo que era gay. Até então eu achava que ser gay era saber dançar, saber se vestir, gostar de coisas bonitas etc. Como um gay poderia criar criaturas tão repugnantes (e ao mesmo tempo fascinantes). Algo estava errado: o Cliver Barker não era gay ou eu não sabia direito o que era ser gay. Apostei que eu estava errado sobre o que era ser gay. E hoje vejo que foi a escolha correta para minha vida.

Com essa escolha, aprendi que não precisava me prender à estereótipos que eu via (claro que na época eu não sabia o que era estereótipos), mas saber que um gay podia escrever filmes de terror me fez perceber que eu também podia escrever filmes de terror e essa ideia na cabeça acabou se desenvolvendo em que eu poderia fazer o que eu quisesse, eu poderia ser quem eu quisesse: um escritor, um diretor, um artista, um arquiteto, um médico, etc.

E apesar da Madonna ser uma constante maior na minha vida em questões de sexualidade. Clive Barker foi a fundação para que isso acontecesse, marcando a minha vida com pesadelos e criaturas infernais. Claro que junto com a minha irmã que era meu porto seguro quando assistíamos a esses filmes.

Pausa para avançarmos até o dia de hoje. Ainda tenho gosto por filmes de terror e suspense, sejam eles cômicos ou não. E ainda alguns filmes me tiram o sono. E resolvi escrever sobre o Clive Barker porque encontrei ele no Twitter (@RealCliveBarker) e de repente o PinHead voltou à minha vida e me fez pensar que Clive Barker marcou tanto a minha infância e adolescência sem eu saber que ele ou eu éramos gays. Não sou um fã de carteirinha dele e não conheço toda a obra dele, mas deu vontade. Vontade de assistir novamente Hellraiser e descobrir se ainda vou ter dificuldades para dormir. Vontade de descobrir mais sobre ele e sua obra. E pode ser que agora vai, pois eu sempre acreditei que tudo tem seu tempo. E se alguém está há quase trinta anos na sua vida (nem que seja no seu subconsciente) e porque algo existe. Enfim, sem eu saber na época, Clive Barker foi um modelo para mim e continua sendo, sempre me lembrando (de tempos em tempos) que sua raça, orientação sexual ou gênero não são (e nem devem ser) obstáculos para atingir os seus sonhos (ou pesadelos).

Bônus: o gatinho do PinHead.

@RealCliveBarker
@RealCliveBarker
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