Bancando o hetero…

Retomando a sequência de post inspirados no documentário sobre o primeiro jogador de rugby a se assumir, Gareth Thomas, vamos falar sobre bancar o hetero. No documentário, Thomas, após descobrir sua sexualidade, a reprimiu. Chegou a casar com uma namorada de colégio, na esperança de que, com o casamento, ele mudasse “magicamente”, que após fazer os seus votos de casamento, todo aquele desejo pelo mesmo sexo desapareceria. Porém como sabemos, não foi isso que aconteceu. Ele teve casos extraconjugais e se sentia mal por fazer aquilo. E o sentimento piorava porque eles estavam tentando ter filhos. Enfim, ele contou para a esposa que era gay e o casamento logo terminou.

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Gareth Thomas, primeiro jogador de rugby, a assumir sua homossexualidade.

A minha história

Eu não me lembro de passar por momentos em que eu achava que eu era errado por ser gay, mas quando era questionado porque eu não tinha namoradas, eu fazia o tipo pegador que queria só ficar com as meninas. Tudo mentira e as pessoas acreditavam. Eu nunca fui o tipo de pessoa que falava para todo mundo com quem eu tinha ficado ou deixado de ficar, então meus amigos não estranhavam o meu silêncio. Porém, na minha adolescência, eu tinha vontade de dividir com alguém que eu tinha ficado com o cara mais gostoso da balada. E, às vezes, trocava o gênero só para poder contar e nunca entrava em muitos detalhes.

Eu nunca reprimi o desejo de ver um corpo masculino, mas me forcei a ter alguns contatos heterossexuais para ver o que acontecia. Fiquei com algumas garotas na minha adolescência, mas nenhuma acendia a chama como os garotos. E no fundo, eu sabia que não havia futuro para relacionamentos heterossexuais e eu ficava mal, pois parecia que eu estava usando-as para ver se era aquilo mesmo que eu queria.

Na época de cursinho, eu fiz algo que eu gostaria de nunca ter feito: estava ficando com uma colega minha e marcamos um cinema para o dia seguinte. Naquela noite, fui para a balada e fiquei com um cara. Claro que o dia seguinte foi péssimo e não houve outros encontros depois. Claro que o nosso relacionamento ficou horrível no cursinho e acabamos nos afastando a ponto de não cumprimentar quando a gente se esbarrava nos corredores.

Quando eu ia para as baladas com meus amigos heterossexuais, eu ficava de lado. Enquanto eles iam atrás das meninas, eu ficava no bar ou na pista, dançando. E na volta enquanto todos estavam contando vantagem, eu era o loser que não tinha pegado ninguém. Mas isso nunca me incomodou. Eles faziam pressão para eu ficar com uma garota (sei lá se era voyeurismo) e um dia, eu cedi. Eu estava meio bêbado na balada e meu amigo queria ficar com uma garota e lá fui ajudar e fazer companhia para a amiga dela. E acabei ficando com ela. E esse dia na volta da balada, parecia que eu tinha perdido a virgindade. Todos comemorando que eu tinha ficado com uma garota. E na minha cabeça, apenas a sensação de que tinha feito besteira. Não era aquilo que eu gostava e parei de ir nas baladas com eles.

Acho que desde a primeira garota com quem eu fiquei, eu já sabia que gostava de garotos. Porém, eu insisti e me sentia a pior pessoa da face da terra. E não desejo isso para nenhuma das duas partes.

Se você sabe que gosta de garotos, não insista em começar um relacionamento com uma garota para esconder que você é gay. Um dia, você pode resolver se assumir e aí, corações vão ser quebrados, sonhos destruídos e pode haver muito ressentimento porque você fez a garota acreditar em algo que nunca aconteceria. Ser trocada por outra mulher já é difícil, imagine ser trocado por um homem. Muitas mulheres ficam com a auto-estima nula por causa disso. Você pode se sentir aliviado por se assumir, mas para isso acontecer, você acabou destruindo os sonhos e esperanças de uma outra pessoa.

Eu sempre gostei de comparar a repressão com um balão. Toda vez que você se reprime, você assopra dentro do balão. Se você não parar de assoprar, o balão vai estourar em algum momento. E aí, como você faz quando estourar? E se estourar depois que você está casado há anos e com filhos?

Se você não está pronto para se assumir e prefere ficar dentro do armário e bancar o hetero. Eu não posso te culpar. Ainda existe muita ignorância na sociedade em relação a ser gay. Mas tecer uma teia de mentiras e envolver outras pessoas emocionalmente para saciar a sociedade da cobrança que ela faz, é uma outra história.

E qual a sua história? Você já ficou com garotas? Você banca o hetero?

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4 comentários sobre “Bancando o hetero…

  1. Minha teia já está tão grande que não vejo o fim…
    Me casei a três anos. Minha esposa é uma mulher adorável. E eu a amo como jamais pensei que pudesse, mas não como homem e mulher (ao menos não completamente). Hoje estou literalmente dividido e não sei mais o que fazer. Não quero magoa-la, e não quero vê-la sofrer. Mas eu mesmo já estou destruído por dentro e perdendo a vontade de viver…. Ela não desconfia da minha sexualidade e eu nunca a traí, mas ela percebe que há algo errado pois já não existe aquela alegria que era uma marca da minha personalidade… sei que se me abrir e revelar a verdade ela vai sofrer muito, principalmente por ter se criado em uma família bastante conservadora… Enfim.. em casa, nas ruas, na praia ou no trabalho não paro de pensar como seria a vida se eu tivesse escolhido um caminho diferente…
    Esse misto de falta de coragem para assumir o que sou e medo de fazer sofrer uma pessoa especial está me destruindo….
    Peço um conselho ou uma palavra de conforto de alguém pois além de tudo esse segredo eu não compartilhei com ninguém. …

  2. Eu vinha tecendo uma teia das grandes em todos os meus círculos de amizade e no familiar tbm. Acho que meu balão já tava tão grande e a teia com tantos nós que me assumi no colégio. Mas ainda não contei pra nenhum familiar e vizinho, e tô ficando velho, agora 19 anos, sem nunca trazer namorada ou arrumar ficantes. Tô tão assexuado na família que nunca comentei do corpo de mulheres ou homens. O incrível é que não sou nada afeminado, nada! Graças a isso, ninguém desconfia de mim, mas o tempo tá passando e eu não arrumo mulheres, namoradas. Acho que as desconfianças estão começando.
    😦

    Não sei oq fazer.

  3. Isso veio como um tapa de luva na minha cara, pois estou tecendo uma teia das grandes e sei que a cada novo movimento pra tecer me enrolo mais e mais. Estou tão farto de tudo isso, porém ainda não tenho idéia do que fazer. Isso é angustiante.

    1. Olá Diego,

      Quando começamos uma mentira e queremos dar continuidade a ela, ficamos sempre preocupados se alguém vai descobrir a verdade e daí não conseguimos aproveitar o momento ou a situação. É como você disse: a cada movimento você se enrola mais e pode chegar uma hora que você vai querer se soltar de uma vez e vai destruir toda essa teia e quem estiver nela, vai cair e se machucar. É o que eu vejo que acontece na maioria das vezes.
      Claro que também não é fácil simplesmente dizer quem você é. As pessoas podem ter uma visão limitada. Sei que é difícil, mas vale a pena tentar não se enrolar mais e mais. Antes de você fazer um novo movimento, pense no que isso pode causar se você resolver destruir a teia.

      Muito obrigado pela visita. E fique a vontade para voltar e desabafar quando precisar.

      Um grande abraço e fique bem!

      Ed

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