Contos de fada não são mais os mesmos

Muito tempo depois de sua estréia, eu finalmente assisti Frozen, da Disney. A demora para assistir esse animação se deve ao fato que eu não me interesso muito quando a protagonista é uma princesa. E isso porque eu me identifiquei mais com os protagonistas de Hercules, Tarzan e O Rei Leão. Sim. Eu nunca quis ser uma princesa, mas sim um príncipe, herói ou um leão.

Mas enfim, com a milhares de paródias da canção ganhadora do Oscar, Let It Go, sabendo que a minha Maureen é quem dublava a Elsa, lá fui assistir a animação. E atenção, teremos spoilers a partir daqui. Então se você ainda não assistiu, vá assistir e depois volte para continuar lendo.

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Enquanto isso, vou me distrair com essa flor na neve…

A animação conta a história de Elsa e sua irmã mais nova, Anna. Elsa tem poderes de gelo e quando um pequeno acidente acontece, ela resolve se afastar de sua irmã mais nova para protegê-la, mas continuam morando no mesmo castelo. E mesmo quando as duas ficam órfãs, Elsa ainda prefere ficar distante da irmã do que consolar e ser consolada. E isso são os primeiros quinze minutos de filme.

Então, com a morte do rei e da rainha, Elsa é coroada a sucessora e, apenas no dia da coroação é que Anna vê novamente sua irmã (depois de anos, muitos anos). Com a cidade cheia e o castelo cheio de pessoas (claro que isso é cantado como toda animação da Disney), Anna esbarra e encontra um príncipe de um outro reino. E é amor a primeira vista e no mesmo dia, eles decidem se casar.

Hein?!!!

A minha primeira reação foi: como assim casar com um cara que você encontrou apenas uma vez na vida. Tudo bem, é uma animação Disney. Mas decidir se casar depois de uma música de menos de 3 minutos? Ainda bem que Elsa e, depois, a outra ponta do triângulo amoroso que Anna se envolve, o vendedor de gelo, Kristoff, dizem que ela é louca (ou coisa parecida) em decidir se casar com um cara que ela viu somente uma vez.

Enfim, Elsa não abençoa o casamento de sua irmã com um cara que ela nem conhece e na briga, Elsa não consegue controlar seus poderes e todos no castelo descobrem. Ela é chamada de monstro, bruxa etc. e foge para as montanhas, deixando a cidade em uma era do gelo. Anna acredita que conversar com sua irmã vai resolver o problema e vai atrás dela, deixando o reino sob a responsabilidade do cara que ela acabou de conhecer.

Hein?!!!

De novo, minha reação foi: como assim deixar o seu reino na mão de um cara que você acabou de conhecer? Tudo bem, é uma animação Disney. Amor a primeira vista é amor a primeira vista, não é? Não é?! Não é?!!!

Não. Não é. Mais para frente descobrimos que o príncipe é um mau caráter que quer só se aproveitar de Anna e ter um reino só para ele. Palmas para a Disney que mostrou, finalmente, que o príncipe encantando não é aquele que você vê pela primeira vez. E lembrei da Cinderela, da Branca de Neve que se casam com o primeiro príncipe que aparece na frente delas. Enfim…

Para balancear o amor à primeira vista, tem o Kristoff (que não é príncipe) e Anna passa a maior parte da animação ao lado dele, conhecendo  qualidade e defeitos. E embora vemos que os dois são feitos um para o outro, ela está cega pelo “amor verdadeiro” do príncipe que está “tomando conta” do reino.

E numa virada repentina, acidentalmente, Elsa atinge o coração de Anna com seus poderes e tudo se torna um clichê: o coração de Anna irá congelar a não ser que um ato de amor verdadeiro aqueça o seu coração. E lá vamos nós: todos os personagens acreditam que somente um beijo de um amor verdadeiro irá salvá-la.

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Amor verdadeiro: você não casa com um cara depois de uma música.

E com todo o histórico de animações sobre princesas da Disney, você torce para que Kristoff consiga dar o beijo de amor verdadeiro em Anna antes que o coração dela congele. E eu já estava conformado  que Anna e Kristoff iriam casar e serem felizes para sempre.

Mas em outra virada, Anna se vê entre escolher em se salvar com o beijo de Kristoff ou salvar sua irmã, Elsa, que será assassinada pelo príncipe mau caráter. E claro, sendo algo Disney, você sabe que Kristoff vai dar o beijo de amor verdadeiro e que Elsa de alguma forma irá conseguir se salvar. E todos viveram felizes para sempre. Não é? Não é?! Não é?!!!

Então, meu mundo caiu. Anna decide salvar a sua irmã e com suas últimas forças, ela corre e fica entre o príncipe FDP e Elsa, e no exato momento que a espada vai deferir o golpe mortal em Elsa, o coração de Anna congela, transformando-a em uma estátua de gelo que quebra a espada e salva a vida de Elsa.

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E eu fiquei boquiaberto pensando: Será que essa é a primeira animação da Disney que não terá final feliz?

Sinceramente, eu não sabia o que esperar desse desfecho. Então, Kristoff se aproxima e dá o beijo de amor verdadeiro. Ah, claro! O beijo de amor será forte o suficiente para aquecer o coração de Anna. Não é?! Não é?!! Não é?!!! Não. Nem o beijo de Kristoff consegue aquecer o coração de Anna. E daí que começo a berrar para a televisão: como assim, Disney?!!! Como o beijo de amor verdadeiro não aquece o coração da princesa?!!! Um beijo acordou uma princesa que ficou anos dormindo! Um beijo salvou uma princesa de um envenenamento!

E foi então que a Disney me surpreendeu: Anna tem o seu coração aquecido e volta a vida. E daí você pensa: ah, o efeito do beijo é que foi lento. Não, eles fazem questão de explicar que não foi o beijo. O ato de amor verdadeiro foi o sacrifício que Anna fez para salvar sua irmã.

Continua sendo clichê? Claro que sim. A Disney adora isso! E nós também adoramos! Mas pela primeira vez, eu vi uma animação Disney na qual o amor verdadeiro é o amor fraternal. E daí, finalmente, temos o final feliz Disney com alguns exageros e uma grande oportunidade de encenar a animação On Ice. Frozen On Ice. Disney On Ice. Entendeu?

E o que acontece com Kristoff e Anna? Eles se casam e são felizes para sempre, né? Outra surpresa minha foi essa coerência. No final, é claro, eles têm um relacionamento, mas continuam se conhecendo. Ou seja, final sem casamento! Mais um pontinho para a Disney. E Elsa? Bem, ela consegue controlar seus poderes, continua a rainha de seu reino. E ela não precisa de um rei. Nem está interessada em encontrar um. Mais um pontinho para a Disney.

Resumindo: fiquei feliz em ver, pela primeira vez, uma animação na qual as princesas resolvem seus problemas e dilemas entre elas, sem ter um príncipe que as salvem, que elas se apaixonem à primeira vista e se casem para viver felizes para sempre.

E se você nunca ouviu a famosa (infame) música que todas as crianças do mundo resolveram cantar em uníssono quando a animação estreiou. Aqui vai para fechar esse post.

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